zoom

18/02/2011

«O objectivo da Games4U é trabalhar com a indústria e não contra»

A Games 4U abriu em Portugal com o objectivo de oferecer um serviço de aluguer de jogos on-line, mas depressa viu o sonho desfeito. Questões legais travaram Fabrizio e Neuza Harper (marido e mulher) que queriam ter uma empresa com um modelo de negócio inovador e user-friendly.

Contudo, a empresa voltou em força e agora propõe preços mais baixos, além de comprar jogos usados. Fabrizio Harper, em entrevista exclusiva ao iTech (a primeira depois de reabertura da Games 4U), explica de que forma é que a empresa se vai movimentar no mercado em Portugal.

Fabrizio e Neuza Harper gerem o Games4U a partir de casa.

iTech: Era comum, nos anos 90 haver alguns vídeoclubes que alugavam jogos, como por exemplo de Mega Drive, Saturn e Playstation. Isso já era ilegal nesse tempo ou a legislação mudou entretanto?
Fabrizio Harper (FH): Quando a Games4U pensou em abrir as portas e providenciar este tipo de serviço ao consumidor, nunca foi informada da ilegalidade ou não do serviço. O IGAC informou-nos que, desde que a games4u tivesse autorização do(s) distribuidor(es) para fazer venda e/ou aluguer, não haveria qualquer tipo de problema.

Obtivemos essa autorização do distribuidor, por escrito, que entregou todo o processo ao IGAC. Uma semana mais tarde soubemos que havia sido negada sem qualquer razão aparente. Posteriormente, o nosso advogado informou-nos que este tipo de situações, infelizmente, não eram novidade e que poderia levar muito tempo, anos até, para conseguirmos andar para a frente com o aluguer.

A Games4U estava apenas no início e resolveu que, perseguindo sempre o objecto de voltar a alugar, seria melhor mudar o seu modelo de serviço. Note-se que o distribuidor em causa tem autorização das editoras para distribuir para toda a parte da Europa o que, portanto, inclui Portugal.

iTech: O que leva a que existam as “barreiras burocráticas” de que falam e que impedem que se aluguem jogos?
FH: Quando o processo nos foi negado pelo IGAC, contactámos directamente as editoras com propostas de aluguer semelhantes àquelas que existem por toda a Europa. Todas elas nos disseram que, realmente, seria uma excelente ideia mas que já tinham contratos com distribuidoras nacionais e que teríamos de passar por eles. Até hoje não obtivemos qualquer tipo de resposta de uma única distribuidora…

iTech: O que perde em concreto uma editora com o aluguer de jogos? Não pode haver também benefícios?
FH: Com o aluguer de jogos existem benefícios para todos. Para as editoras/distribuidoras há menos dependência em títulos considerados mais aclamados e populares pelo consumidor.

Ou seja, o risco de compra de um jogo a 70 euros que não atinge todas as expectativas é muito maior; existe um número de títulos que têm sido falhanços comerciais embora sejam jogos muito bons. Um bom exemplo é o Enslaved que foi considerado um jogo fantástico mas que não produziu resultados porque o consumidor foi mais reservado.

Além disso abre o mercado a novos jogadores (consumidores), pois o custo não é tão proibitivo, os royalties continuariam a ser produzidos e, por sua vez recebidos, mesmo meses após um jogo ser lançado no mercado.

«Enslaved foi considerado um jogo fantástico mas que não produziu resultados porque o consumidor foi mais reservado».

iTech: Quando sabemos que a pirataria de jogos é uma realidade exposta na Internet, à vista de todos, não será uma hipocrisia impedir o aluguer dos mesmos?
FH: Completamente. Em Portugal, o ordenado médio será 500 a 600 euros (não o mínimo). Um jogo de consola, novo, sai para o mercado português a 70. Muitas vezes, jogos que já saíram há alguns meses continuam a ser vendidos a este preço, por serem jogos muito populares e requisitados.

Neste momento, quem perde é só mesmo o consumidor que, por exemplo, pode adquirir um jogo, não gostar e ter de ficar com ele; Depois há os casos em que se compram jogos que tem, em média, vinte horas de vida e que depois voltam para dentro da caixa. Para que o consumidor continue com o seu hobby tem de gastar mais 70 euros num jogo novo.

A Games4U acredita que, infelizmente, pirataria existirá sempre. No entanto, neste momento, não existe outra opção se não gastar os 70 euros ou não ter o jogo de forma alguma. O aluguer de jogos permitirá a uma família, pai e mãe, e/ou um individuo, que acabou de gastar 200 a 300 euros numa consola, evitar o risco associado ao “jail break” da mesma, porque o custo do “alimento” a essa consola é proibitivo. O aluguer dá uma opção realista, legal e financeiramente viável para todos.

iTech: O dinheiro do aluguer poderia ser repartido com as editoras e distribuidoras dos mesmos?
FH: O objectivo da games4u é trabalhar com a indústria e não contra. Se olharmos para o sucesso de empresas como a Gamefly nos EUA, a LoveFilm no Reino Unido e até a Amazon, não existe qualquer razão para que o aluguer de jogos não possa existir ao lado das vendas tradicionais.

O que o aluguer de jogos oferece às editoras e/ou distribuidoras é a produção de royalties sempre que um jogo/titulo é alugado; isto não acontece com vendas de jogos em segunda mão.

iTech: Na vossa opinião qual era o modelo de negócio ideal para o aluguer?
FH: O modelo ideal seria, para a Games4U, uma mensalidade fixa, sem contrato mínimo, sem custos de envio, sem multas de atraso e sem limites de tempo. Isto é tudo o que queríamos oferecer.

iTech: Se dizem não incorrer em “ilegalidade alguma”, porque foram forçados a suspender a actividade até dia 7 de Fevereiro? Existe um lóbi por trás disto?
FH: Tudo isto é uma questão de contratos de distribuição “exclusiva”. Este tipo de contrato não é aceite pela União Europeia que, por outro lado, está activamente a assegurar-se que os direitos do consumidor são iguais em todos os Estados da Europa.

iTech: Como vai ser a vossa estratégia daqui para a frente? Apostar em preços mais baratos e promoções ou voltar a insistir no aluguer?
FH:
A Games4U continuará a insistir sempre no aluguer, pois acredita que esta opção é importante para o consumidor. Se alguém quiser telefonar para o IGAC para perguntar, porque não? Nós poderemos dar o número! [risos] Em termos de preços, a games4u acredita que poderá, na maior parte dos casos, oferecer preços mais competitivos e um serviço que é completamente focado no cliente. Somos grandes fãs de redes sociais e acreditamos que o nosso contacto com o consumidor no dia-a-dia faz com que sejamos diferentes.

iTech: A venda de jogos em segunda mão começou com uma moda da Game em Portugal, mas entretanto já há mais empresas (e até mesmo o Jumbo) com o mesmo modelo de negócio. A Games 4U recebe muitas propostas neste sentido?
FH:
O único interesse que a Games4U tem é facilitar uma melhor experiencia de gaming a todos os nossos clientes. O que significa que os únicos jogos que compraremos de volta serão os que a Games4U vendeu. Respeitamos e seguimos as regras impostas pelo IGAC.

iTech: O que esperam de 2011? Quais são os vossos objectivos? Vai haver novidades no vosso modelo de negócio?
FH:
Esperamos que 2011 traga a oportunidade de chegar a algum acordo com as distribuidoras nacionais para que possamos provar que existem benefícios quer para eles quer para o consumidor. Deixamos o convite aberto! E também gostaríamos que Diablo III fosse finalmente lançado! [risos].

—–

Empresa: Games4U
CEOs: Fabrizio e Neuza Harper
Site: www.games4u.pt
Contactos: formulário no site

Comente e partilhe no Facebook



Sobre o Autor

Ricardo Durand
Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil. No iTech é o responsável pelas Sextas iPad e pela edição geral do site.