Está de regresso o homem alcoolizado, dependente de analgésicos e que vive permanentemente num estado inebriado. Após muita indefinição, finalmente a Rockstar (responsável por títulos como GTA), pegou no jogo, dando aquilo que de antemão prometeu: um título recheado de acção, um argumento seguro, uma personagem carismática e uma jogabilidade absurdamente viciante.
Max está de regresso ao activo neste terceiro capítulo, seguramente mais velho, mas com a pontaria ainda mais calibrada. São raros os falhanços neste título e mesmo aqueles que existem, apesar de serem evidentes, não diminuem em nada, a meu ver, a sua grandiosidade. Max Payne 3 ocorre oito anos desde o seu predecessor e Max é agora um polícia reformado, que se viu obrigado a fugir para o Brasil, após uma rixa num bar que o colocou em rota de colisão com a máfia.
É neste país tropical que trabalha como guarda-costas de um importante magnata. O rapto de sua filha é ponto de partida para mais uma aventura que o vai colocar constantemente em situações de vida ou morte durante uns generosos catorze capítulos, não deixando de reservar algumas incursões pelo universo antigo de New Jersey. O principal e o primeiro grande problema deste título é que não acrescenta praticamente nada de novo ao género ou até ao jogo em si.
Todavia, a escolha do Brasil como cenário de fundo não deixa de ostentar uma certa frescura à série. Max, por sua vez, continua ressacado, sempre com o pensamento noutros tempos, velho e cansado, mas tal e qual como o vinho do Porto, melhora com a idade e continua a ser um verdadeiro “Die-Hard”.
Mas a verdade é que o protagonista já não se “mexe” com a agilidade de outros tempos, de entrar e aniquilar todos à sua volta. Agora, e apesar da jogabilidade se manter bastante frenética, exige-se mais ponderação ao jogador, e o principal objectivo é sofrer o menor dano possível. Para tal, é extremamente importante recorrermos ao novo sistema de cobertura para dessa forma aumentarmos a esperança de vida do personagem. Todavia este não permite uma troca rápida e eficaz entre os vários pontos de protecção, o que normalmente resulta em balázios desagradáveis.
Apesar disto é satisfatoriamente capaz de nos proteger o tempo suficiente para não sofrermos grandes estragos. Existe ainda a opção a que chamei “último tiro”, que automaticamente se “activa” quando Max leva com a bala “fatal”. Na prática permite ao jogador, enquanto está a definhar, efectuar um último disparo durante cerca de três segundos. Se atingirmos o alvo, recuperamos a energia e sobrevivemos (ainda que sem Painkillers não se dure muito tempo), se falharmos é morte certa e reinício do checkpoint. O maravilhoso Bullet Time persiste e em grande escala e (além da espectacularidade que confere ao jogo), é genericamente mais prolongado.
Temos inclusivamente cenas em que o mesmo só termina após a eliminação de todos os adversários. E nesta fase poderão estar a pensar que é um jogo demasiado fácil, mas enganam-se, aliás, se no início tudo é relativamente simples, a partir do meio, torna-se mesmo complicado matar os inimigos, exceptuando quando conseguimos headshots, sendo que nalguns casos chega a ser frustrante a quantidade de balas necessárias para deitar por terra um vilão. É ainda na jogabilidade, maioritariamente na terceira pessoa, que surge o segundo problema de Max Payne 3. Tal consiste na falta da variedade de situações in-game, visto que basicamente a estrutura repete-se nestes moldes: cutscenes seguidas de intensas vagas de inimigos, terminado novamente em cutscene que por sua vez dá origem a nova sequência.
Porém estas são muito bem trabalhadas e resultam num grande envolvimento para a história e num argumento digno de qualquer bom policial. A narrativa avança sempre num estilo muito cinematográfico, sem nunca perder o ritmo, e mistura vários elementos (sequências em mosaico tanto ao género da banda desenhada como da série 24), bem como o realce de frases ou palavras à medida que estas vão sendo ditas nas sequências cinemáticas, que ajudam a envolver o jogo no universo de Payne.
Existem ainda alguns apontamentos stealth, também interessantes, e cenas com diversos veículos, desde carros, barcos, autocarros e helicópteros, sem existir contudo a liberdade para os podermos controlar. A Rockstar não poupou em nenhum aspecto e de forma alguma. É impressionante a quantidade de cenários (extremamente realistas) pelos quais Max Payne vai deambulando e a imensidão brutal de objectos espalhados pelos mesmos.
Graficamente perdeu alguma da beleza do noir nos títulos anteriores, mas mantém as texturas imensamente detalhadas e animações super-realistas, desde o andar das personagens, aos impactos das balas, ou até à interacção com os cenários e os objectos presentes nestes. Seja em que cenário for, os gráficos explodem no ecrã e nos respectivos efeitos visuais. São imensos os pormenores deliciosos, desde o excelente guarda-roupa do herói, às magníficas recriações das favelas e da ambiência que se vive nestas – a sujidade, o nível de vida, os bordéis e o movimento destes, as cenas de sexo ou nús parciais, o dialecto português (brasileiro) presente em grande parte do jogo, recheado de palavrões e violência sem grandes censuras – que resulta num dos jogos mais fervorosos ao nível da linguagem e retrato de uma sociedade (ainda que com exageros aqui e ali).
Também as movimentações das personagens e as expressões faciais estão acima da média, sendo ainda possível observarmos micro-expressões (ex: ligeiros sorrisos), principalmente na face de Payne que conferem um realismo extremo ao jogo, que, apesar de bastante exigente a nível de processamento, oferece loadings dentro do expectável. O trabalho sonoro continua imaculado, especialmente na sonoridade das armas – extremamente variadas – um verdadeiro arsenal à disposição mas também brilha no elenco (e, apesar do leque de falas no Brasil não ser muito variado, resulta).
Max Payne é simplesmente arrebatador – parabéns a James McCaffrey nos seus monólogos fantásticos onde se percebe, raiva, sentimento de perda e arrependimento – bem como todas as restantes personagens que igualmente estão muito bem conseguidas. A musicalidade está adequada, tensa e ritmada quando a cena assim o exige, sem nunca esquecer e homenagear os acordes originais. Destaco também a banda sonora a cargo de algumas bandas que se enquadram perfeitamente, com particular atenção para a música ‘Tears’ (tocada pelos Health) que acompanha uma das melhores cenas do jogo lá mais para o final.
Novidade é a integração do modo multiplayer que conta com os habituais Deathmatch e Team Deathmatch, sendo ainda possível o desbloqueio das versões hardcore e de muitos outros itens. O modo Gang Wars é igualmente inédito, e conta uma história, narrada por Max, bastante simplista é certo, que permite até dezasseis jogadores online, o que pode representar algo positivo para o futuro. Também existe a possibilidade de recorrer ao Bullet-Time nalguns modos, o que a meu ver foi uma óptima decisão por parte da Rockstar.
Em suma, e embora não explore grandes novidades dentro do género, este é um daqueles títulos obrigatórios, que oferece uma excelente narrativa de acção, recheada de momentos memoráveis. Se por um lado as rugas que Max ostenta podem não garantir grande continuidade no futuro… por outro, e no caso de este ser o último da série, Max Payne 3 é seguramente um excelente e inesquecível farewell and godspeed.
Análise de André Santos
Plataforma: PC
Editora: Rockstar Games
Preço: 49,99 euros












