Era uma vez uma série de enorme sucesso. Chamava-se Microsoft Flight Simulator e durante anos fez as delícias dos amantes da aviação pois era um simulador de grande nível. Várias versões foram saindo, criando uma legião de fãs ao longo dos anos. Depois, num certo dia a palavra ‘Simulator’ caiu.
Microsoft Flight (sem o ‘Simulator’) é o novo lançamento que pode agradar a gregos ou a troianos, mas dificilmente aos dois. Parte do “core” está lá mas foi feita uma aproximação da simulação dura aos jogadores mais casuais. A pilotagem em si, o base, continua real. Então o que mudou?
Para começar mudou a jogabilidade. Deixou de ser um conceito totalmente livre desde o início do jogo e passou a ser uma jogabilidade por objectivos em que o “piloto” vai ter de provar que sabe pilotar. No primeiro minuto deste Flight somos obrigados a efectuar uma série de manobras simples em estilo de tutorial, onde aprendemos as manobras básicas de pilotagem. Para os jogadores mais “core” isto é uma autêntica ofensa.
Muitos fanáticos da série fazem voos com condições de visibilidade zero, só com as indicações do painel de voo, e agora metem-lhe à frente um jogo em que o início parece o “Super Mario Flight”. Eu não sou um dos maiores fanáticos de aviação, mas já deu para ficar indignado. Imagino aqueles construíram cockpits em casa e que comem “trens de aterragem” ao pequeno-almoço…
Mas temos de continuar a descobrir este novo título e não o encostar de imediato. E confesso que com algumas horas fiquei um pouco mais aliviado (só um pouco). Progressivamente vamos deixando de ter que fazer manobras obrigatórias, aterragens e descolagens e vamos tendo mais opções à disposição. Os “tutoriais para totós” começam a ser mais sérios, em que vamos ter de olhar para uma checklist e aos poucos a fazer os procedimentos correctos para levantar voo e aterrar, verificar ailerons, flaps, luzes, potência, etc… espero que lá bem para a frente no jogo tenhamos a possibilidade de simular ao nível do Simulator (algo me diz que não…).
Por enquanto, e já levo umas boas horas de jogo, nem sequer apanhei ainda a opção de comunicações de radio, não vi um único avião no ar, nenhum movimento na estrada ou no mar. O que vejo é um mundo completamente morto. E nem a palavra “mundo” podemos aplicar, pois não existe mais que o Havai.
Não é só no nível de simulação que existe crítica. A Microsoft anunciou o jogo como sendo gratuito, o que na realidade é uma história um pouco mal contada. O jogo está disponível gratuitamente para download, e é realmente jogável, mas pouco. Apenas temos dois aviões e o cenário do Havai incompleto. Enquanto no Simulator tínhamos milhares de aeroportos e aeródromos, agora estamos limitados às ilhas do Havai, (não todas).
Deixamos de ter três mãos cheias de aviões e agora temos apenas dois. E, verdade seja dita, além de muito pouco conteúdo não conseguimos avançar no jogo com o que temos ao dispor sem comprar extras. Isso mesmo, o jogo que era gratuito “obriga” a comprar extras para se poder continuar a progredir. Podemos assim comprar um novo Havai (parte do cenário que falta) com várias actividades e oferecem com o pack mais um avião, ficando com três.
Comparando com os dezoito da versão standard do Simulator, dá vontade de chorar: o pack custa 1600 pontos Microsoft, cerca de 19 euros. Além do pack completo Havai, podemos também comprar mais dois aviões, um a 640 pontos (cerca de 8 euros) e outro a 1200 pontos (14 euros). Total em extras: 41 euros. É importante referir que, sem estes extras, não podemos avançar muito mais no jogo. Acho que o deviam ter anunciado como jogável e não gratuito.
Sabe-se que a Microsoft está já a preparar para lançar um pack (cenário) “Alasca”, muito provavelmente… a pagar, claro. No fim, para termos tudo, vamos acabar provavelmente por gastar mais que o Simulator. Deixando de lado a questão monetária e a questão da simulação, vamos prosseguir e ver o resto. Em Flight temos um historial de voo com tudo o que já fizemos e com um sistema de pontuação por níveis, X pontos para passar para o nível Y.
Temos vários objectivos propostos para subir a nossa pontuação e a cada nível aparecem novas propostas e desafios. Temos em abundância aterragens e descolagens com os vários aviões em condições simples e mais complexas tanto a nível de meteorologia, como a nível de pistas, umas bastante curtas, outras estreitas. Temos também locais espalhados pelo mapa para descobrir e que nos dão pontos, e ainda missões de transporte tanto de carga como passageiros.
Transportar carga é mais fácil se não for com peso em demasia, e transportar passageiros pode ser complicado, pois temos de voar sem abanar muito o avião, virando muito suavemente para os passageiros não ficarem mal dispostos. Nesta altura não temos ainda aviões de grande porte, apenas avionetas. Tanto podemos levar passageiros de um ponto para o outro, como levar alguém a dar uma volta de avião e voltar.
O jogo com o decorrer do tempo vai-se compondo, anulando um pouco o choque inicial, mas nunca chegando a um grau de satisfação do Simulator, pelo menos para a velha guarda. Para novos jogadores não habituados a simuladores de voo, esta talvez seja uma boa maneira de se inserirem no meio, pois a aprendizagem é gradual e qualquer um pode fazer um voo.
Os gráficos são bons dentro do avião mas fora, tudo estático sem movimento. O som do avião foi melhorado com boas gravações mas, tirando isso, nada de especial: alguns comentários da torre de controlo ou dos passageiros em tons de arcade.
A longevidade é enorme embora muito repetitiva no modo “carreira”. Num simulador puro, o factor jogabilidade/entretenimento é algo muito próprio, pois a realidade é mesmo essa, voar, ponto final. Num “Simulador” com modos objectivos/carreira já tem de ter algo mais, tem de ter objectivos em abundância, desafios, missões ou qualquer coisa que nos faça sentir a progredir.
Já que não é um simulador puro, podia então ter o modo carreira mais desenvolvido e aqui falha um pouco. Mas o futuro deste jogo poderá mudar, o futuro cenário do Alasca pode querer dizer que vão ser desenvolvidas diferentes partes do globo e muito possivelmente também mais aviões. Boeings e Airbus, esperamos! E algo diz que sim, ou não fosse um dos objectivos a alcançar, transportar um milhão de passageiros. O avião com mais capacidade de transporte de passageiros leva apenas 4, iríamos ter de fazer 250.000 voos… ou no futuro temos as linhas comerciais ou então algo não foi bem pensado.
Microsoft Flight é bom para iniciados na aviação, mas pouco mais. A falta de vida deste Flight fora do cockpit é algo difícil de aceitar. Gráficos bons (estáticos) mas não chega, é aborrecido e repetitivo. Posso estar de acordo com cenários e aviões em forma de packs e extras, em que se paga o que se quer mas, meus amigos, com preços aceitáveis, dez ou mais euros por um avião extra não me parece razoável.
Análise de Tiago Lobo Dias
Plataforma: PC
Editora: Microsoft
Preço: Gratuito, mas com extras pagos > Download aqui













